1 – O imperativo de um modelo

Na procura do ser, a visão do corpo e o imperativo de um modelo

O corpo é sede da acção e da consciência. Para além do conhecimento pragmático que disciplinas como a Anatomia e mais recentemente a Biomecânica nos proporcionam, o corpo tem sido tema preferencial dos artistas e objecto da ciência. O modelo é o resultado da procura de uma certa estabilidade, quer por necessidade científica, quer por imperativo da própria idealização, segundo um quadro de valores culturais.

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Da razão da sombra e da revelação da luz

“Um oleiro de Sycione foi o primeiro a inventar em Coríntio a arte de realizar retratos com a mesma matéria de que se servia, graças à sua filha apaixonada por um jovem de partida para uma longa viagem; ela contornou na sombra projectada por uma lâmpada sobre a parede a configuração do perfil do seu amado; o pai aplicou argila sobre o traço realizando um modelo que cozeu ao fogo, juntamente com os seus potes.”

Através da sombra a realidade transfigura-se, ocultada da crueza da luz, anima-se e forma-se como da própria matéria plástica se tratasse.

Apesar desta leitura paralela sobre a origem da arte na História Natural de Plínio, o Velho, não ser suficiente para enquadrar o nascimento da actividade artística, porquanto, apenas se reporta ao retrato (1), permite-nos extrapolar dois caminhos centrais e colocar muitas questões.

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Pigmalião e Galateia. Jean-Léon Gérôme, 1890

 

O anjo de Gala. Salvador Dali, 1935

 

O primeiro, implícito no texto, alerta-nos para a criação do duplo, como causa profunda da própria existência, na perseguição de um ascendente humano sobre aquilo que tudo sorve e mitiga, pulverizando a memória e reduzindo a consciência – o Tempo.

 

Se o corpo é o único que por extensão de nós próprios partilha uma existência singularmente definida, nenhum outro objecto poderia ser alvo de tão grande atenção…

 

Essa relação de intersecção entre o ser e o meio protagonizada pelo corpo é também a principal causa que alimenta a procura da revelação em torno das eternas interrogações.

 

Agora, enveredamos pelo segundo e último caminho. Neste, a revelação é a linha condutora, à semelhança de como delineado o traçado da sombra revelou a configuração do rosto do jovem. Conquistar o caos. Construir as chaves e os instrumentos, para a compreensão do mundo, através da explicação da sua ordem fenomológica, são as perspectivas que parecem desenhar-se.

 

De facto, não esquecendo o Desenho como a plataforma onde progride essa reflexão, na sequência do que foi escrito anteriormente, encontramos numa única causa, fruto da existência (qual anatomia do infinito), duas vertentes: da razão/afirmação e da revelação/explicação.

 

O Desenho continua a ser aquilo que na sua hipotética origem o marcou como linguagem autónoma e universal. Por um lado, campo onde a afirmação se impõe pela razão da sua própria presença, pesem embora as descontinuidades culturais; por outro lado, a economia sintáctica ao nível da sua linguagem coloca-o como meio privilegiado de revelação. Revelar, explicar como, também são, por isso mesmo, as outras vocações do desenho.

 

Embora com grande separação no tempo, os desenhos realizados nas paredes das cavernas e os elaborados a partir de computador, todos resultam do esforço Humano para registar o meio envolvente e, por consequência, torná-lo inteligível.

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Osso gravado. Calendário lunar, 30.000 a 20.000 A.C.

 

A sequência tem origem à esquerda do centro da imagem; as duas marcas representam a noite do último crescente visível e a primeira noite de lua nova (círculo preto). O diagrama contínua até ao final da fase de invisibilidade. A partir da explicação de Alexander Marshack apresentada em 1965.

 

Desde os tempos mais remotos que o ser humano tem recorrido ao desenho para compreender o mundo e estabelecer um campo de conhecimento que propicie a necessidade de uma melhor e mais estável interacção.

 

Na procura dessa explicação o Desenho tem servido para descrever, classificar, ordenar, analisar e principalmente globalizar o entendimento do mundo, pela excelência da sua estrutura nunca se esgotando na função explicativa, mesmo quando, com esse objectivo é utilizado disciplinarmente ao serviço da ciência. Antes, revelando a extensão e abrangência intemporal do seu discurso visual, em referência às mudanças de conceptualização e às possibilidades das estratégias gráficas.

 

Por consequência, à semelhança das linguagens verbais e matemáticas, os desenhos construídos como instrumento da procura de um entendimento, abrem novos horizontes no papel histórico da ciência, da arte e da cultura.

 

Esse facto reveste-o de um incomensurável valor documental. Daí que a função reveladora/explicativa do modelo/desenho ocasione a breve trecho a emergência de uma razão, de uma afirmação.

 

A dualidade dos dois objectivos está bem presente, no que é, porventura, o mais caro assunto do desenho – nós próprios, a nossa anatomia e os procedimentos que de algum modo pudessem minorar as vicissitudes da condição humana. Esta espécie de cartografia interna, que ao pormenor procurou encontrar, decifrar e compreender o corpo na sua totalidade, é uma aventura de milénios, mas com especial destaque para o contributo de figuras como Leonardo DaVinci.

 

A propósito do modelo, procurando a vida no meio da morte

 

De que há registo, os primeiros desenhos a fornecer indicações sobre a organização interna do corpo pertencem a Galeno, que no século II, a partir da dissecção de primatas, extrapolou a ordem anatómica interna do ser humano.

 

A dissecação de seres humanos era interdita e somente no século XVI, Leonardo da Vinci terá sido o primeiro a estudar a anatomia interna do corpo, directamente apoiado na observação de cadáveres.

 

Suspeita-se que, apesar dos estudos anatómicos iniciados por Leonardo, a partir de cadáveres humanos, a actividade de investigação, algo mórbida, entre o secretismo do roubo exercido tanto em cemitérios, como em campos de batalha após a refrega, teria como objectivo camuflado a procura e consequente descoberta da sede da alma, esse enigma extra material a que, por hipótese, os cientistas da época não puderam resistir.

 

A morte como a vida são os grandes enigmas. O corpo como modelo é por isso mesmo a procura da vida e o conhecimento da morte. Senão, como compreender esta época em que o desenho e a arte reflectem tão intensamente o papel imperativo do modelo na procura exaustiva da sua ordem anatómica. Leonardo terá sido, também, o primeiro artista a conjugar a arte com o conhecimento interno do corpo humano, construindo um saber que não se satisfaz apenas com a visão superficial do modelo, a entender para além da fronteira da epiderme.

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Estudo dos músculos da cintura escapular umeral – ombro. Leonardo da Vinci, cerca de 1510

 

“Tu pretendes que será preferível ver praticar a anatomia do que observar os meus desenhos; terás razão se se puder ver todos os detalhes que os meus desenhos apresentam numa única figura, porque num corpo, com todo o teu talento, tu não distinguirás mais do que algumas veias. Para adquirir um conhecimento justo e completo, eu dissequei mais de dez cadáveres, destruindo todos os outros elementos, ao remover pedaços de carne que tapavam as suas veias, sem outra forma de atingir as artérias capilares. Um só cadáver não dura muito tempo; torna-se necessário utilizar vários, por etapas, até atingir um conhecimento completo. O que eu fiz duas vezes para verificar as diferenças. Apesar de todo o teu amor pela investigação, não podes deixar de sentir náusea; se não for o cheiro nauseabundo sentirás o medo de passar horas durante a noite em companhia desses cadáveres cortados, esfolados e horríveis. E se isso não te demove, pode ser que tu não tenhas o dom gráfico para a interpretação figurativa. E se tu sabes desenhar, pode ser que te falte o conhecimento da perspectiva; e se tens o sentido matemático das posições e o método para calcular as forças e a energia muscular, pode faltar-te a paciência, e tu não serás aplicado. Se eu tenho ou não todas estas qualidades, decidirão os cento e vinte volumes que compus. Não fui interrompido nem pela avareza nem pela negligência, somente pelo tempo.”

 

Durante séculos, a partir de Leonardo da Vinci, o interesse pela anatomia e o desenho explicito e revelador unem artistas e médicos. A obsessão pelo modelo anatómico é bem evidenciada ao longo dos séculos XVI a XVIII, transformando-se em tema artístico como podemos exemplificar (ilustrados a partir de cima) com base no “esfolado encostado contra uma parede”, de André Vésale (séc. XVI); “Prancha anatómica “, de Gérard de Lairesse (séc. XVII), “esqueleto com hipopótamo”, de Jan Wandelaar (séc. XVIII). Ao olhar para estas ilustrações pressentimos um certo distanciamento, face à secreta e intensa necessidade humana da criação de duplos. Talvez sejam o produto de um esforço em exorcizar a morte, vanglória do domínio sobre os princípios da máquina humana, exultar a vida a partir da sua antítese.

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(1) As artes visuais são inconcebíveis sem instrumentos e meios técnicos. No antigo Egipto já se usavam tesouras para recortar silhuetas de perfil. O recurso à luz, ao alvo e à sombra é bem mais antigo do que Plínio pretende acreditar.

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